A solidão: esse monstro encantador
Qualquer um escreve sobre qualquer coisa nos dias de hoje: qualquer um escreve sobre solidão. Porque o ser humano é sozinho. E o que importa nesse enunciado é o verbo: podemos não estar sozinhos ou não nos sentirmos sozinhos, mas somos – e assim morreremos: sozinhos.
Qualquer pessoa pode escrever sobre solidão porque solidão é também rejeição, porque solidão é também vingança, e inveja, e ciúme, e excesso, e falta, e fim. Mas eu não quero falar da solidão que não é sintoma: é hematoma. Não quero falar da solidão resultado, conseqüência, fruto, saldo, efeito, decorrência. Não quero falar da solidão bicho-papão, feia e medonha, que se esconde debaixo da cama. Quero falar da solidão bonita, que não assusta; quero falar da solidão que não se esconde, mas habita: dentro de cada um; a solidão que é também alegria ou dor, mas que é, principalmente e também, amor. Quero falar da solidão: esse monstro encantador.
As praças de alimentação estão lotadas de pessoas acompanhadas de seus telefones espertos e existem dezenas de outras pessoas escrevendo sobre isso. Matérias na VEJA, em blogs conhecidos e etc. falando do silêncio que tomou conta dos relacionamentos nessa era pós-moderna que consolida nossa sociedade reticular: conectada em rede, desconectada em presença.
E lá se vão os laços afetivos, as relações físicas e presenciais e blá, blá, blá. Pois bem, eu vim levantar minha bandeira a favor da solidão. E não, eu não acabei de levar um pé na bunda.
Tudo bem você ser a favor ou contra a maconha – porque você tem argumentos para isso (ou pelo menos deveria). Tudo bem você ser a favor ou contra o aborto, lutar pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pela liberdade do sexo feminino… Então, qual o problema de querer libertar a solidão?
Sempre viajo para Santa Catarina nas férias, para comemorar as festas de fim de ano com minha família. A pergunta “e os namorados?” é e sempre será assunto favorito nessas reuniões. Mas, conforme o tempo passa, a entonação muda. O que antes era uma questão repressora, que praticamente exigia uma resposta negativa, agora é feita em tom de curiosidade, como se a resposta positiva fosse óbvia, como se estar sozinho te colocasse no lado negro da força, como se ficar sozinho fizesse de você um ser humano insuportável. Pois eu penso o oposto: não há nada mais desafiador do que conviver consigo mesmo, mexer nas próprias feridas e mergulhar nas próprias dores, vasculhar o próprio passado, analisar os próprios erros e compreender as próprias escolhas. A velha história do saber aconselhar os amigos, mas não saber por em prática tais conselhos na própria vida.
É claro que aprendemos com os outros, e ensinamos também. Como diria Freud: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Porque aquilo que somos é sempre sombra daquilo que alguém foi. (Daí a criatividade ser algo tão valorizado hoje em dia). Mas, como também nos disse Freud, o homem só é dono daquilo que cala (e escravo do que fala). Ou, nas palavras de Terry Eagleton, muito verdadeiras no que declaram, as pessoas são falsas naquilo que negam. Porque o que há de mais verdadeiro em nós é o que está guardado mais profundamente, aquilo que não é apenas união de retalhos de sombras alheias e que, talvez por isso, só se manifesta na solidão. Eis, então, a solidão: um mal necessário.
Quer algo mais triste que ir ao cinema sozinho? Quer algo mais triste que uma pessoa comentando o filme, fazendo barulho e te importunando no cinema? Parece radical, dramático, louco e sem propósito – eu sei. Sei também que não se chega muito longe quando se percorre o caminho sozinho. Mas a questão aqui não é de auto-suficiência ou vaidade ou prepotência. É só um esclarecimento sobre a contradição dos discursos. O lado
“ruim” da solidão, do isolamento, da ausência, do retiro, todo mundo sabe (porque todo mundo diz – e escreve, e posta, e comenta). Mas e o lado bom?
Pra quem já assistiu Na Natureza Selvagem (do diretor Sean Penn, 2007) o exemplo pode parecer inadequado, afinal o personagem morre no final (viu como é chato ter alguém comentando o filme?), após concluir que a felicidade só é real quando compartilhada. Entretanto, não podemos deixar de analisar que essa conclusão é fruto de um isolamento e que esse isolamento fez de Christopher McCandless, também conhecido como Alex Supertramp, personagem principal da história, o que ele é, construiu seu caráter e sua visão única de mundo. Sou a favor da solidão não por ser contra as relações humanas de troca (todo tipo de troca, de mercadorias até saliva). Sou a favor da solidão não por ser contra a convivência ou por achar que o ser humano “não tem mais jeito”. Pelo contrário, sou a favor da solidão porque, embora talvez otimista demais, eu acredito que, se o ser humano permitir conhecer a si mesmo, conseguirá enxergar-se no próximo, fazer menos julgamentos e agir com menos injustiça. Se no fim do dia tudo o que nos resta é o que somos, é bom que aprendamos a lidar com isso antes que o sol se ponha.
[Tava tão fácil me ganhar. Mas você conseguiu fazer tudo errado.]
As ruas sempre foram pouco iluminadas e eu andei sempre com muita cautela por todas elas. Analisei cada rua antes de dobrar a esquina, decorei números e anotei endereços pra garantir o caminho de volta. E quanto mais caminhava, mais escuras ficavam as ruas e mais clara a minha curiosidade de saber onde ia dar. Ironia do destino, porque sempre soubemos – eu, você e o resto do mundo – que jamais daria em lugar algum.
Te chamava em silêncio, enquanto fingia não te esperar. Fui me contentando com migalhas porque descobri que era tudo que você podia oferecer. Me alimentei dos restos e sobras da sua embriaguez tentando acreditar que isso não era tão ruim, já que duraria pouco. Imaginei coisas lindas e simples nos seus raros momentos de fé. Caminhei sobre um ponto de interrogação achando lindas as curvas do caminho; me distraí ouvindo seu blues no percurso e esqueci que o dúbio também finda, até que alcancei o ponto final do ponto de interrogação.
Por um momento quis continuar, mas não sabia pra onde ir e não encontrei ninguém pra perguntar. Meu mapa só ia até ali, onde eu já havia chegado: tudo que me restava era voltar. Talvez fosse mais corajoso continuar sem saber, pensei na hora. No entanto, me dei conta de que havia feito todo o trajeto sem saber. Foi quando notei também que as luzes dos postes das ruas estavam apagadas. E na escuridão do caminho tudo pareceu mais claro, mais simples e mais fácil. Uma bela contradição pra ilustrar outra contradição – que fomos nós. Compreendi muitas coisas e cheguei a conclusões muito distintas das que os pensamentos dos últimos meses haviam me levado.
Não importa quão simples a gente é: tudo precisa de equilíbrio pra ser simples. O problema é que equilíbrio não é sinônimo de quase-tentativas-covardes.
Digo quase-tentativas porque gosto de ver o lado bom das coisas quando o assunto é você (já que normalmente eu sou bem pessimista). Nunca houve, de fato, tentativa de coisa alguma. Existiram algumas frases e idéias e declarações que no dia seguinte fingíamos não ter dito e não ter ouvido. Existiram momentos bons e alegres e fofos que aconteciam quando os bares já haviam fechado e o caminhão de lixo já havia passado. Digo covardes porque tenho essa sinceridade áspera incontrolável dentro de mim, senão não diria. Mas foram: nossas não-tentativas foram covardes. Não por não terem acontecido de fato, mas por não termos assumido que não queríamos que acontecessem. Você nunca quis. Não o suficiente. Não o bastante pra dizer com todas as letras e demonstrar com todos os gestos. E mesmo assim me contentei com suas meias-palavras e seus não-gestos. Sorri antes de ir embora sabendo que voltaria se você chamasse da próxima vez, mesmo não acreditando em nada, mesmo não acreditando em nós. Porque eu também não quis – o todo. Não quis as preocupações, as chatices, as cobranças. Mas será que dá mesmo pra querer algo assim? Eu quis você. Desajeitado, desligado, desencanado. Eu quis você pra me trazer paz e nenhum medo. E agora não te quero mais pra não ter medo de te querer depois. Agora não te quero mais pra poder ter sempre esse friozinho na barriga quando chego ao bar e vejo você de costas, usando uma camisa xadrez qualquer com o cabelo bagunçado e um cigarro na mão. Agora não te quero mais porque não quero que isso vire nossa rotina, nossa preguiça de pensar, não te quero mais porque quero te querer sempre. Te querer bem, mal, perto, longe, muito perto. Não te quero mais porque não quero a segurança que vem com esse mais. E a certeza e as respostas. Porque fomos sempre dúbios e covardes e indecisos e desencanados. E assim nos quero.
Quero lembrar as vezes que olhei inutilmente no espelho antes de sair de casa e prometi a mim mesma que não ficaria perto de você. Quero lembrar os nossos risos despreocupados sob qualquer coisa idiota, quero lembrar a nossa vontade de sermos apenas nós mesmos e ficarmos confortáveis assim. Quero lembrar o seu jeito estranho de dizer que gostava de mim, sem querer dizer de fato – talvez por não ser verdade ou por medo de que eu entendesse errado. Pra sua sorte, eu nunca entendi – nem errado, nem certo.
Chegamos longe, andamos bastante: cada um de um lado da rua, mas pelo menos escolhemos a mesma direção pra seguir. Talvez pudéssemos ou devêssemos estender a viagem, mas essas coisas a gente nunca descobre realmente. Não carregamos bagagens, nem culpas, nem arrependimentos. Levo algumas lembranças no bolso - afinal cabem todas ali -, e sei que meus olhos vão continuar sorrindo, mesmo quando eu me afastar mais. Só sinto não precisar sequer soltar a sua mão pra seguir viagem.
Tava tão fácil me ganhar. Mas você conseguiu fazer tudo errado. E agora, no caminho de volta, vejo que talvez você tenha feito tudo certo.
“Danada, finge tão bem..”
Não tenho coração, cabeça, tempo, fôlego, estômago, paciência, muito menos controle pra amar você. Mas confesso que às vezes te odeio de um jeito muito sincero. Às vezes desejo que você quebre uma perna ou um braço, ou quem sabe ambos. Tenho esse desejo ácido de te ver sofrer um pouco. Se eu conseguisse te amar acho que te mataria. Mas daí penso também outra coisa: que não te conheço. Não sei nada sobre aquilo que te agrada e te desagrada, sobre o que te fere e o que te cura, sobre o que você quer ou sobre o que você abandonou. E então te quero bem. E desejo que você não seja covarde. E descubro que no fundo, apesar de te odiar às vezes, eu nunca te mataria, simplesmente porque não consigo te esperar, apesar de tudo que foi dito aquele dia.
1x1
“Tem que ser irônico, charmoso e inteligente. Não precisa ser bonito – se tiver barba. Se souber tocar John Mayer prometo não cansar nas duas primeiras semanas. Tem que ser honesto – não precisa ser fiel nem verdadeiro, mas tem que ser honesto. Um cafajeste – honesto. Que liga quando tem vontade, que some às vezes, que causa irritação, raiva e ciúmes ao mesmo tempo e sem motivo real, e que por isso me faz rir de mim mesma por saber o quanto isso é infantil e inútil. Tem que ser imprevisível, mesmo sendo honesto: não cria expectativa mas também não cansa. Não pode se conformar com o pouco: tem que ficar feliz com o pouco. Sim, pouco. Não pode transbordar, sufocar. Não pode ocupar meu tempo, estragar meus planos, mexer nas minhas feridas. Tem que ser leve, breve e ao mesmo tempo sem pressa. Tem que ser engraçado e paciente. Mas não precisa ser legal o tempo todo. Não precisa ficar, mas também não precisa fugir. Pode me ver como companheira e como inimiga – de vez em quando – mas tem que sacar logo que eu sou uma exímia jogadora. E jogar também, sabendo que ninguém ganha e ninguém perde. Ninguém pode ganhar e ninguém pode perder. Essa é a segunda regra – depois de ser irônico e ter barba. Não tem que tirar o fôlego, não pode ser arrebatador, avassalador. Não pode ser amor, porque me disseram que amor não acaba. Tem que saber que cedo ou tarde acaba. Na verdade atinge a validade na hora certa: nem cedo, nem tarde: porque jogo é a única coisa que ainda dá a sensação de que existe algo no mundo que não é controlado. Tem que ser discreto, mas não pode ser invisível. Tem que ser intenso e ao mesmo tempo inconstante. Não pode deixar dúvidas, muito menos respostas. Tem que ver sem gritar, tem que dizer sem mentir e, principalmente, tem que ‘ser’ sem propósito, sem proposta, sem promessa, sem futuro, sem segurança. Tem que ser assim e, sobretudo, tem que saber que é assim. Tem que ser igual e justo, sem ser imparcial. Tem que escolher um lado – mesmo que mude de idéia toda hora. Tem que ser decidido sem ser teimoso. Não precisa gostar de nada do que eu gosto, mas tem que me deixar gostar. Pode (deve) me mostrar muitas coisas e me fazer gostar de muitas coisas. Pode provocar, mas tem que agüentar o troco. Porque tem que ser um jogo justo. Porque não é amor: acaba. Porque não é paixão: acalma. Não tem nome. Pode ser uma brincadeira: arriscada, mas divertida. Não pode interromper: meus pensamentos no meio dia, meus sonhos no meio da noite, minha vida no começo da vida. Não pode dar saudade, só vontade. Tem que saber a hora certa de sair de cena e, principalmente, de entrar em cena. Não pode se deixar desvendar e também não pode se esconder. Não pode pensar antes de falar mas tem que pensar antes de fazer. Pode ser fofo, mas não pode ser romântico, dramático e, em hipótese alguma, sensível. Não pode precisar de mim. Não pode me fazer esperar. Porque eu não sei esperar, mas sei ir embora. Pode ser confuso, estranho, ter manias e falar engraçado. Desde que não seja pra me impressionar. E eu? Eu tenho que tomar cuidado, porque eu não sei perder. E jogo é sorte. E a sorte aí se chama empate.”


